Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

O  PRÓXIMO
 

 
Maria Júlia, em tenra idade, vai à igreja com a vovó, que lhe ensina algumas orações. Porque está prestes a fazer sua Primeira Comunhão, inicia-se também no estudo do evangelho.  

Passa a participar das aulas de catecismo, todas as tardes das quartas-feiras, naquela mesma igreja.  Junta-se, pois, a outras crianças de sua mesma faixa de idade.  Catequistas muito bem instruídas.


Na última aula, após dois meses dessa introdução ao conhecimento dos deveres cristãos, o vigário da paróquia fez uma avaliação dos resultados desse trabalho.

Ele logo verifica que todas as crianças - iniciantes - têm suas lições bem decoradas, na pontinha da língua, principalmente a que se refere aos Dez Mandamentos da Lei de Deus.   Aí, para sedimentar tão belo conhecimento, resolve fazer uma breve sabatina entre aqueles novos catequisados.

Escreve, então, no quadro:

Ama o teu próximo como a ti mesmo

E pergunta:


- Quem sabe explicar esta palavra:
 
“O   P R Ó X I M O ” ?
 
As crianças, mesmo entendendo um pouco o sentido do termo, nada respondem.  Certamente, inibidas com a presença e/ou a indumentária do desconhecido catequista.
 
O vigário insiste um pouco, tentando acalmar as crianças e até fornecendo-lhes algumas dicas...

Como ninguém lá da frente  responde, Maria Júlia, impaciente no penúltimo banco, levanta o braço e grita:
 

Eu sei...
 
- Ah, muito bem!  - Responde o vigário, reanimado.  Aponta no quadro o mandamento (Ama o teu próximo . . .)  e, como que dando Graças a Deus, estende um sorriso e os braços para ela:

- Então, filhinha, diga-nos, em voz alta, o que você entende por “o próximo” ? . . .

Maria Júlia, por susa vez, sobranceira e sem medo de errar, explica com suas doces palavras, palavra por palavra:

- O “próximo” é assim: 
 
- quando a gente está no médico, uma enfermeira, toda vestida de branco, abre a porta e chama:
 
“ O   P R Ó X I M O ! ! ! . . . “

- Então, "o próximo" é sempre quem está no médico, quem precisa de remédio

. . .

 
O vigário não a reprova e nada mais  questiona.  Abre a Bíblia  (em Lucas, 18-15-17)  e  lê,  para  si, e para todos os presentes, inclusive os que riram da resposta de Maria Júlia.   Mostrou que Jesus está ali, dizendo através dela, as palavras mais simples, de maior sentido e a mais apropriada para aquele momento:

Vinde a mim as criancinhas, porque é delas o Reino dos Céus”.

Por que o eruditismo?  

Basta ser e basta crer, como as crianças.

O NOSSO PRÓXIMO SEMPRE PRECISA DE UM MÉDICO E DE ALGUM REMÉDIO . . .


 
Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 20/09/2011
Alterado em 29/12/2013
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