Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

NÃO MAIS ME VERÁS !               Parte  I


         Faz trinta anos que não a vê.    Senta-se numa das poltronas do lado esquerdo, um pouco mais ao fundo do auditório de quatrocentos lugares.  Como esperado, ela será chamada à mesa arrumada no centro do palco.

Inaugura-se uma importante casa de repouso para idosos.  Não tem que ver um clube ou hotel bem estruturados!  A reforma e revitalização do casarão da paróquia, pelo visto, contou com aprovação divina e maciça participação da comunidade.  A princípio, uma instituição cooperativa, o que incita o desejo coletivo de que tudo dê certo.  Os responsáveis pela administração preveem o autossustento da Casa, tendo como meta o incremento do número de hóspedes nas vindouras estações de veraneio.   As praias, por si atraentes, colocam Cabo de Areias entre as melhores cidades balneárias da região.  Isto há de ser explorado.    Ele é hóspede e colaborador.

Mas é daquele recanto, um tanto discreto, que Fred quer tão somente vê-la.  Irma sequer vislumbrará sua presença ali, com o auditório assim superlotado!...  Geriatra, ela oferece, voluntariamente, seus serviços à comunidade.  Por certo, será chamada a participar da equipe de administração, evidentemente na área de saúde.   Na pauta de atividades, consta seu nome como o palestrante da semana.  Discorrerá, na próxima sexta-feira, sobre o tema:  “A importância da família nos degraus da vida”. 
 

Para Fred, uma oportunidade de vê-la e ouvi-la.  Saudade da tessitura de sua voz tendente a contralto.   Interessado no assunto, cata uma ficha no bolso e corre ao telefone da praça: – Oi, Mabel!  Querida, não me espera hoje, tá!...  Tenho uma palestra pra assistir na sexta-feira.  Sábado, pela manhã, estarei chegando...  – E Mabel, sozinha em casa, lá de Mauricea, capital do estado vizinho, responde, conformada:  – Tá bem, amor!  Sábado é a festa no clube dos antigos engenheiros da ferrovia, lembra?  A dança começa já às dez da manhã.  Te espero lá!  Um beijo...

Ele e Irma já se acham aposentados e têm famílias bem constituídas.  Por uma feliz coincidência, buscam antigos amigos, mormente em Cabo de Areias, lugarejo onde sofreram derrotas, sonharam vitórias, cresceram felizes, amaram e se amaram.  Ambos, contemporâneos no ensino voluntário em escola daquela mesma comunidade. – “Professores e alunos, éramos todos iguais na pobreza de nossas mesas” – relembra.  Na mente, uma foto dos jovens de então, filhos de pescadores, ferroviários, portuários..., ali presentes.   – “Sem as vestes da pobreza, como irei reconhecê-los?

Inquieta-se.  São quase nove horas e Irma não vem.  Passara toda uma noite indormido, auxiliando nos trabalhos de arrumação da Casa.  Domina o sono, porque quer vê-la e saber de que forma o tempo lhe mudou o semblante, a tez morena, o cabelo liso, escuro, brilhante.  – “Depois de caminhar por terras longínquas, com certeza mudou o jeito de me olhar.  Upa!   A solenidade vai começar”.

–  “Que é de Irma?”

O Cônego Alfredo pede as bênçãos de Deus para a nova Casa.  Faz bela homilia, fundamentado no “Amai-vos uns aos outros”, ensinamento cristão muito bem vivido naquela comunidade.  Orador respeitável. Não tem as pernas, mas percorre o mundo em cadeira de rodas.  Nos braços, tem a gesticulação.  Nas mãos, a leveza da benção.  O “doutor” Uílio convida outras pessoas para compor a mesa.
   

– “E Irma?!...”

Mais por ingenuidade, chamam àquele senhor de “doutor” Uílio.  Decerto, porque se veste, impecável e permanentemente, de branco.  Nesse ato, representa o prefeito, porque, mesmo sendo pouco letrado, sabe discursar como uma autoridade.

Fred, fatigado, leva as mãos à face e esfrega os olhos.  Num repente, começa a sentir as pálpebras pesadas.  O pequeno auditório parece girar e incendiar: luzes ofuscantes, como de um clarão ardendo em torno do rosto.  Empalidece.  Ligeira e irregular perfusão sanguínea no cérebro.  Sente que vai desmaiar. Sob confuso burburinho, levam-no à enfermaria, no exato momento em que Irma adentra no auditório. red não a vê.  

Já faz trinta anos que não a vê.

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A seguir:  partes II a V
Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 05/11/2011
Alterado em 05/11/2011
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