Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

HOMENS, PULGAS E OUTROS PARASITAS HEMATÓFAGOS
 

 
Do ovo saímos larvas.  De larva viramos pupas e só depois assumimos nossa independência – na forma imago de pulgas.  Passamos por uma metamorfose em cada um desses estágios.

Enquanto pupas, ficamos na incubadora – nosso casulo – aguardando condições externas de sobrevivência.   De doze a uns cento e oitenta dias, testando a temperatura e a umidade do ambiente a fim de sairmos dali saudáveis, plenamente.

Seres humanos também dependem da mesma temperatura de que necessitamos para sobreviver como bebês (entre três e trinta e cinco graus centígrados).  A pequena diferença é que, ao sairmos da incubadora, já vamos disputar o jogo da vida – no ataque ou na defesa – como pulgas adultas metamorfoseadas.

No momento, temos uma série de problemas a resolver antes de completar nosso último estágio.  É que o ambiente está em crise.  Por isso, continuamos contando os nossos dias, encasuladas. 

A temperatura esquenta.  De repente, parece que o mundo incendeia.  Afora o calor, não há mais água em nossas represas e estamos pobres de alimento em nossas mesas.  Entenda-se:  falta o sangue de nossas presas, faltam presas...  Faltam aves, faltam gatos, faltam cães...  É neles que construímos nossas mansões e preparamos nossas hematófagas refeições.  Todas as pulgas de nossa família se encontram em desespero, morrendo de saudade de seus inquietos e diletos hospedeiros!


Lástima! Nenhum mamífero aparece!  Nem pé sujo, desnudo, por aqui passa!...  Até isso nos serviria, mas só passa mesmo é pé limpinho e notícia ruim.  Veja-se:

Falam em elevação da energia – intensidade da luz que nos chega durante o dia – e na não detecção dos ruídos e, principalmente, do dióxido de carbono exalado pelos mamíferos.   É esse o gás da morte e da vida.  Gás da morte porque, concentrado, faz a atmosfera reter calor, causando mudanças climáticas indesejáveis.  O tal efeito estufa.  O gás da vida porque, assimilado através da fotossíntese, traz mais vigor aos seres vegetais.  É, pois, esse mesmo gás (CO) que provoca o metamórfico despertar de nossas pupas dorminhocas.  Graças à sua ação – como se num passe de mágica –, emergimos pulgas.  Vê-se que não nascemos só por nascer!...   Vê-se que, se essas coisas nos faltam – ruído, calor e gás –, o nosso viver se esvai!...

Ainda bem!  Temperatura branda.  Ensejo de nossa última metamorfose.  Já não somos pupas.  Mas, se tudo está em falta, o que é que vai sobrar pra nós?... Antes tivéssemos ficado por lá!  Teríamos morte mais digna.  Sobrou somente a possibilidade de uma brutal incisão no nosso sonho de viver.  Precisamos lutar para isso não acontecer!...  Não dá pra continuar assim, só nos deparando com coisas ruins.  Vamos protestar!  Protestar!...   Aliciemos nossos pares, nossos familiares e todos os insetos não alados similares, desde que tenham três pares de pernas longas, como nós.  Treinemos nossos saltos. Mudemos tudo isso que achamos errado, ou nos mudemos todas daqui!...  Ora, se pomos de trezentos a quatrocentos ovos por vez, então, podemos crescer em proporção geométrica. O que importa, no momento e no movimento, é quantidade. Nós - apelidadas de parasitas - ocuparemos nossos lugares nas estatísticas ao pressionar as autoridades.  Precisamos, juntas, defender os nossos direitos de hematófagas e largar essa vida de filhas das pupas.  Queremos calar os que ainda nos tratam como peões, ou larvas.  Larvas são coisas cegas que fogem da luz.  Não nos servem. Queremos luz. Façamos bastante ruído e abramos brechas para passagem do CO₂ que vem das grandes chaminés industriais.  Isso vai ajudar a metamorfosear nossas pupas ainda encasuladas. Queremo-las adultas no nosso movimento.  Unamo-nos todas nesta luta.  Unamo-nos, sim, porque nada presta neste ambiente em que vivemos...  Estamos perdidas numa imensa floresta, escura, sem fim, um aglomerado de arbustos, um labirinto confuso...  Até quando?  Queremos mudar.  Mudar ou abandonar este lugar horrível.  O mundo inteiro pode estar melhor do que nós.  Preparemo-nos, pois, para soltar o nosso grande grito, uníssono, de liberdade, antes que seja tarde...

Quem comanda o nosso grupo, ou o nosso aglomerado?

Não precisamos de comando.  Comandantes sempre nos induzem a tomar caminhos errados.  Até chamam-nos parasitas, depreciativamente.  Importa-nos reagir...  Parasitas uma ova!  Temos condições de pôr de trezentos a quatrocentos ovos por vez.  Além do mais, mesmo desprovidas de asas, nossos pulos alcançam quase um metro na horizontal, ou metade disso na vertical.  Nesse ponto, somos melhores do que os limitados seres humanos – guardadas as devidas proporções –, se saíssemos de nossos minúsculos cinco milímetros para os seus tamanhos...

Sei.  Para se igualarem a nós no salto em distância, eles necessitam construir aeroplanos.  Nada contra, desde que, vez por outra, nos acidentes que provocam, nos cedam algumas gotículas de sangue para alimentar nossos filhotes.  

Interessante!  Não havíamos pensado nisso antes!...  Humanos  também vivem do sangue dos seres vivos, até mesmo o de seus semelhantes!  Sangue para crescer, evoluir, ficar ricos, sobreviver...  E, aqui pra nós, eles só têm religião porque sacrificaram o deus deles numa cruz.  ”Pelo sangue de Jesus!”...   Eles têm até banco de sangue!...  Eles têm um líder capaz de trucidar seis milhões de judeus, do mesmo jeito que sangram animais para o seu churrasco diário.  Eles têm pilotos suicidas, que  levam para o fundo do mar, ou jogam contra os rochedos, aviões conduzindo centenas de inocentes passageiros.  Eles têm pais que atiram seus filhos, crianças indefesas, dos andares altos dos edifícios, por desespero ou inexplicável desprezo.  Eles executam uma criatura inocente, acusada de roubar bebês, só por acreditar nas “verdades” de uma Internet, inclemente.  Quais vampiros, eles se vingam de certa autoridade, vomitando dúbias verdades e regozijando-se de sangrá-la até o último pingo.  Eles trocam tiros nas ruas – policiais e bandidos – e as balas procuram nas casas algum morador que se imagine protegido.   Eles fabricam armas para praticar fratricídios, por perversidade ou diversão, pra ver o sangue se espraiando pelo chão...  É uma forma de, pelo sangue, se amarem ou se odiarem uns aos outros.  Eles criam para si vantagens inominadas, conluiam-se em consórcios parasitários, sugando o sangue dos seus irmãos hospedeiros – pagadores de suas propinas e remessas para bancos estrangeiros.  Pior: têm a certeza de livrar suas culpas através de intolerantes acordos de delação premiada.   E tem mais...  E tem mais...

Aqui no nosso mundo não tem nada disso.  Pra praticar a verdade nós, pulgas, não dependemos de religião, nem de oração.  Os que praticam a verdade não irão a julgamento.  Os que trabalham com a verdade rejeitam armas e armadilhas.  Quem armadilhas faz, em armadilhas cai. Pulgas não eliminam pulgas, nem as sugam: respeitam-se mutuamente, como irmãs e como se fossem autoridades umas das outras.  Multiplicam-se.  Quem segue a verdade, vê razões para multiplicar a vida:  “Crescei e multiplicai-vos”.    Veja-se que cada uma de nós, pulga fêmea, pode botar até dois mil ovos com prazer, enquanto viver.  Se precisamos do sangue da outra para alimentar nossos bebês, não lhe sugamos, mas o pesquisamos em suas fezes...  Humilhante, não?!...  Mas, significa isso o respeito à vida dos nossos semelhantes.  É a nossa verdade.  

E por falar em fezes, um ser humano acaba de passar por aqui, quase nos pisa, quase nos mata, e ainda suja uma parte de nossa floresta... 

Upa!  Cuidado!...  Protejam-se todas!  Quem puder, volte pra dentro de seus casulos!  Está vindo um tornado exatamente do lugar onde a floresta foi pisada!   Ai, desgraçados!  Muitas de nossas pacatas irmãs foram sugadas, tragadas pela tormenta.  Aqui é assim:  quando cai algum sujo, de repente venta fortemente.  Ninguém aguenta!  Isso é lá lugar digno de se morar!...  Vamos protestar!  Marquemos o nosso grande dia!...  Sairemos já deste ambiente infecto.  Aqui é o inferno...  Chega!...  Chega!...

Chega o nosso dia "D". 

Atenção!  Na contagem até três, todas nós pularemos de uma só vez, gritando numa só voz:

                              QUE PAÍS É ESTE?”...

E pularam, todas, juntas, para os paraísos que imaginaram, para os lugares maravilhosos que tontas sonharam.

Aí, agarradas umas às outras lá no alto de uma janela, o vento arrastando grande parte delas, descobrem que a repugnante moradia que tanto lhes aborrecia e atormentava...
ERA UM BELÍSSIMO TAPETE:
CONFORTÁVEL E BEM CUIDADA ALCATIFA EM LINÓLEO,
DISTENDIDA  NO  GABINETE
DO PRESIDENTE DE UMA RICA EMPRESA DE PETRÓLEO.
Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 06/04/2015
Alterado em 06/04/2015
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