Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

SERES DA TERRA, SEREIS IRMÃOS !

                         (I)


Gaia, Gea, Mãe Terra, Terra...

Bela bailarina, vestida de água e a dançar,

no ar,

giros duplos e piruetas mirabolantes.

Num “pas de deux” elegante,

faz espetacular dueto com o Sol,

seu par divinal, seu astro, fonte de luz e energia,

que aquece, ilumina, contagia, incendeia...

Astro que, num lance óptico fenomenal,

pinta com diversificadas e belas cores

as flores que ela traz esparramadas

nos verdes prados de suas veias.

                         (II)

Terra e Sol.

Convivem, os dois, em equilíbrio emocionante,

no fantástico e interessante palco do Universo,

onde outros corpos celestes,

embrenhados nas inúmeras galáxias adjacentes,

também exibem danças harmoniosas,

irradiando luz, alegria e vida no espaço.

Todos congregados num só corpo de balé,

em consonância com a regência do Criador,

que solfeja litúrgicas partituras de amor

(quem sabe, um “Pour Élise” em sumos acordes).

Satélites, asteroides e estrelas candentes, em ânsia,

também se mexem nos céus, partícipes dessa dança.

                         (III)

Afeita à vocação de mãe virtuosa,

a bailarina leva no colo os filhos desentranhados do seu ventre.

Oferece-lhes os seios nus, donde eles sugam a sustentação:

frutos, verduras e outros organismos fotossintetisados

que escorrem pelos alvéolos na partilha da amamentação.

Sementes de Deus, extraídas dos seres que da Terra brotaram,

semeadas por seres irmãos, que se incumbem da mesma missão:

cuidar bem da mãe provedora, mantendo-a saudável,

alimentando-a e realimentando-a;

organizar suas vestes e sapatilhas

(campos, semeações, mudas...)

para efeito da apresentação

(colheita, distribuição, reprodução...),

preservando-a sorridente nos movimentos e ritmos da coreografia;

zelar pela vida e equilíbrio corporal dessa Terra que lhes foi doada,

com a mesma dedicação que têm pelo mais valioso dos seus bens.

                         (IV)

Tudo de bom Deus esperou dos seres racionais que uma vez criou

e que, para a vida preservar, lhes recomendou, a princípio,

melhor fruição do ar

além de redobrada atenção com o pulmão (verde) dessa mãe artista,

que dança, não descansa e ainda canta canções de ninar, ao luar.

                         (V)

Para bem utilizar e manter as águas perenes, límpidas e puras,

Ele, o Criador, contou com o pragmatismo consciente de Suas criaturas.

Afinal, são águas que nutrem, vestem e embelezam

os feitos e efeitos dos requebros de Sua Alteza, a mãe Natureza!

Se esgotada essa fonte, tudo o que é real se tornará irrelevante ficção.

Aí,

a dança se transmuda em espalhafatosas rodadas do nada:

passos e caminhos se perderão noutras direções;

pontes mergulharão em seus próprios vãos, sem função;

rios afundarão em seus leitos, sem qualquer proveito;

horizontes, desalinhados, restarão ultrapassados;

seres se procriarão inanimados...

e da Terra restará uma só pedra.

Que Deus livre a humanidade dessa tragédia !

                         (VI)

Pela razão natural de nem todos os humanos

terem compreendido Suas divinais intenções,

logo surgiram os que assumiram a propriedade

desta Terra bem-aventurada,

e a dominaram e a saquearam.

Corações violentos violaram-na:

ferindo e degradando o solo;

queimando e desmatando a flora;

dizimando e eliminando a fauna;

sujando ou secando as águas;

poluindo ou envenenando a atmosfera;

priorizando o lucro, que gera mais lucro, que gera...

Aliás, que não gera nada mais, quando gera a miséria

ao excluir do seu convívio outros seres, seus irmãos...

É a semeação do ódio, que provoca as guerras,

que semeia dores nas articulações da Terra,

avivando o fogo ateado nas sementes

que queimam a alma dos semeadores.

                         (VII)

Seres de corações empedernidos,

cujos batimentos imitam as bombas de reação nuclear:

adoradores de incessantes homicídios coletivos;

admiradores da desintegração de espécies nativas;

indiferentes às contaminações de que é vítima a espécie humana...

                         (VIII)

Como passes de mágica e por uma ideia trágica,

esse mesmos corações petrificados

se utilizam das máquinas para tornar o mundo escravizado.

É a mal aproveitada evolução tecnológica superando a biológica:

gasto supérfluo de energia em interação com uma cria metálica

que vende verdades, mentiras e coisas que a humanidade desperdiça.

Enquanto isso, a mãe Terra agoniza, devastada e maltratada.

Seus gritos de dor se ouvem entre os que dormem nas calçadas,

entre os sem terra, sem água, sem alimento, sem medicamento...

São gritos também ressoantes dos orientais imigrantes,

ou dos retirantes ocidentais que, antes, anos a fio,

desciam a pé pelos leitos secos dos rios,

lá dos rincões dos sertões do Nordeste,

fugindo das secas, da fome, das pestes

e, por causa dos seus jeitos e trejeitos,

vítimas de chacotas e de preconceitos.

                         (IX)

Imigrantes ou retirantes, mendigos errantes, culpados de nada,

por nada possuírem, nada herdarem, nada reclamarem...

Inculpados de suas origens, de sua semiescravidão,

dos seus apelidos sem sentido, dos gestos incompreendidos,

da língua enrolada, ou da cor às vezes queimada,

que lhes marcaram tão logo nasceram.

                         (X)

A Terra, agora, mais parece uma bailarina asmática,

que já não faz ginástica ou os gingados de antes,

e tosse, e se contorce de dores reumáticas nos seus giros vacilantes.

Mas foi aos seres racionais

– dotados de razão, capazes e loquazes  –

que o Criador confiou a Terra e toda Sua criação...

Como querem viver?

Cabe a escolha, não ao Criador, mas às criaturas.

Que tipo de mundo pretendem deixar de herança para as gerações futuras?

                         (XI)

Que essa herança não seja a submissão às máquinas,

mas a entrega às suas próprias ações, com imaginação e libertação;

que os novos herdeiros optem

mais pelo que é real, autêntico, normal, natural,

do que pela ilusão da dependência virtual;

que se decidam, enquanto lhes anima a juventude,

pela mudança de atitude, em busca do melhor estilo de vida:

nas formas de consumo e produção,

nas estruturas de poder e administração;

Que se manifestem contrários aos modelos de crescimento vigentes:

que desvalorizam os seres humanos e, sobretudo,

desrespeitam seu ambiente.

                          (XII)

Cabe a esse ser, o humano,

descobrir que ele é incapaz de se auto-criar;

que ele é razão, espírito, crença, liberdade, vontade, amor,

e, por ser sujeito e efeito da Terra, é também natureza.

Cabe a esse ser,

limitar o seu "ter" (o consumo) e,

até por dever de ofício, alargar sua cota de sacrifício

em favor da reconstrução da Terra e da humanidade.

Cabe a esse ser,

o compromisso de evitar o desperdício,

fazendo crescer, em gestos elegantes,

generosidade e capacidade,

a atitude de até o pouco partilhar com os seus semelhantes.

Cabe a esse ser,

o aprendizado da doação, de coração,

até daquilo que lhe pareça supérfluo, inservível ou obsoleto.

Cabe a esse ser,

compreender-se como SER da Terra

e respeitar-se como solidário SER irmão.

(Fernando Aquino Freire)


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Texto inspirado na Carta Encíclica LAUDATO SI´
– Sobre o cuidado da casa comum –
Papa Francisco – Ano 2015
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Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 05/10/2015
Alterado em 07/10/2017
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