Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

                 DINOSSAUROS CACAREJEIROS

 
Henrique e seu primo Luiz vão à livraria com suas mamães e logo se deparam com a seção de literatura infantil.  Eles começam a folhear alguns livros interessantes e prometem ficar ali bem comportados.   As duas mamães - irmãs -, confiantes, se afastam por um momento, enquanto escolhem algum livro noutras seções do mesmo piso. 

- "Adulto só sabe conversar com adulto!" - Dizem os dois pimpolhos.


Luiz, que está completando sete anos, vai lendo para Henrique (dois anos mais novo) tudo que encontra e se refira aos dinossauros – sua paixão.  Influencia e convence o primo a  manusear um certo livro com textos e bastante ilustrações desses reptis pré-históricos. 

Descobrem, no mesmo livro, vários tipos de dinossauro.  Dentre muitos, lhes chamou a atenção o Tyrannosaurus Rex, um carnívoro dos mais agressivos.  Este comia diversos animais, inclusive os dinossauros herbívoros, quando mortos. Costumava, também, roubar os ovos de outros dinossauros, com o intuito de maturá-los e se alimentar dos filhotes. 

Essa informação deixa Henrique um tanto aborrecido.  Ele se queixa da falta de  inteligência da mãe dinossauro, que deveria enterrar os seus ovos a fim de protegê-los dos predadores.
 

Quando estavam mais empolgados com a leitura, as mamães vêm buscá-los. Despedem-se, com promessa de, mais tarde, novamente juntos, comemorarem o aniversário de Luiz.

Ainda na livraria, Henrique leva a mãe de volta à sessão de infantis e lhe aponta o livro de que mais o primo - Luiz - se interessara e que, por certo, gostará de recebê-lo de presente. 

Raïssa atendeu à sugestão do filho e comprou logo dois exemplares: o primeiro para Luiz e o segundo para o seu pequeno leitor, cuja espontaneidade de escolha a surpreendeu.


Henrique volta para casa muito contente com o seu inesperado presente.
 

Mais tarde foi à festa de aniversário. Luiz fica surpreso e  maravilhado com o livro que ele realmente desejava possuir – o presente recebido de Henrique.   Compromete-se a ligar todos os dias para trocarem conhecimentos sobre os afamados e pré-históricos dinossauros.
 

Em casa, porque Henrique ainda está aprendendo a juntar sílabas, portanto desconhece o sentido de muitas palavras do seu novo livro, Raïssa lê alguma história e lhe dá as explicações do que esteja ao seu alcance.  Aí, Henrique corre ao telefone e vai testar os conhecimentos de Luiz.   Mas não deixa de repetir uma mesma pergunta:

- Por que as fêmeas dos dinossauros não enterravam os seus ovos?...”.   Fica intrigado com a evasiva da resposta.

Sempre à noite, antes de dormir, a mãe lê para Henrique, ou repete, em tom suave, mais algum trecho pertinente aos dinossauros.  Ele ouve, adormece e, às vezes, sonha.

Passam-se alguns dias. Seu aniversário está próximo.  A mãe começa a pensar no tema. Pede-lhe uma sugestão - ele emudece.  
Ela percebe que algo de estranho está acontecendo.  Tenta contar-lhe uma história - ele se recusa a ouvi-la.  Ela fala dos preparativos para o aniversário - ele nada diz e vai dormir . . .  Motivo de inquietação...


Nova preocupação para Raïssa:

- todos os ovos que comprara, no dia anterior, desapareceram da geladeira, sem explicação.

Pede à cozinheira para comprar nova remessa de ovos.   Coloca-os na geladeira e fica atenta.

Quem teria adentrado na casa nesses dias?  

O jardineiro?  A faxineira?  A passadeira?...  

Todos, serviçais de sua inteira confiança.  Não se sentirá bem interrogando qualquer um deles.  Pouco lhe interessa encontrar o culpado.  Mas o problema se repete.


A cozinheira comprou novos ovos, lavou-os e colocou-os na geladeira.  No dia seguinte, mais uma vez, todos desapareceram, misteriosamente. Seis dúzias de ovos perdidas.  E agora?  Fazer o quê?  Não havia rastros estranhos em torno da casa.  A vizinhança já começa a espalhar que algum animal misterioso, alado, ronda o  condomínio,  surrupiando ovos de galinha das geladeiras.  À boca pequena, toda a cidade vai ficando em polvorosa. 

Num belo dia, o jardineiro confidencia a dona Raïssa que, ao afofar a terra, em algumas partes do jardim, tem encontrado muitos ovos enterrados. – “Será catimbó, madame?!...– desconfia.

Dona Raïssa responde que não. Agradece a informação e diz que está tudo sob controle.  Pede, apenas, que ele fique quieto e marque os lugares onde os ovos estão aparecendo.  Sai, em seguida, para buscar o filho no colégio.

Henrique continua cabisbaixo.  Alguma coisa o perturba.  Ao chegar em casa, a mãe, percebendo que não cessa o mau humor do seu filhote, abraça-o e o põe no colo.  Pede que ele desabafe, diga-lhe o que tanto o preocupa...

Ele responde que teve um sonho, mas nada pode dizer. Somente Luiz sabe do ocorrido, mas também nada pode contar, senão estará tudo perdido.

Dona Raïssa insiste, dizendo que “todo sonho que os filhos contam às mães se realiza.  E ela, se escutar o seu sonho, promete segredo absoluto.

Henrique, enfim, depois de oito longos dias, abriu um sorriso.  Acreditando na promessa da mãe de  tudo segredar,  encosta os lábios em seu ouvido e sussurra os detalhes de um belo sonho:

- “Eu estava conversando com os dinossauros nas montanhas.  Aí, pedi à mãe dinossauro para que ela enterrasse os ovos... Uma maneira de salvar os seus filhotes das garras dos predadores. Ela me respondeu que, assim, eles morreriam sufocados.  Mas topava fazer uma experiência em nosso jardim.  Eu e Luiz plantaríamos os ovos de galinha e ela, todas as noites, viria maturá-los. Logo, logo, ao invés de pintinhos, nasceriam pequenos dinossauros.  Disse que era um segredo.  Se eu ou Luiz falássemos dessa experiência com qualquer outra pessoa, todos os ovos iam gorar e se perderia a incubação"...

Dona Raïssa pensa - "se as crianças não sonhassem bobagens, o mundo seria cinzento!" - e o reanima:

Pois, filho, acredite no seu sonho!”.

Enfim, encontra o tema de aniversário que estava procurando.   Empolgada, rasca o tacho de suas economias e...
 

Secretamente, encomenda setenta e dois dinossauros infláveis (quantidade exata dos ovos plantados no seu jardim), todos com um metro de comprimento.  Combinou com profissionais de recreação para colocá-los nos pontos indicados pelo jardineiro, que escavará o chão, enterrará os dinossauros, recheados de balas e chocolates, e recobrirá tudo com grama sintética. Isto há de ser feito na manhã do aniversário do filho.

Também combinou com a irmã, Ana Emília, mãe de Luiz, para levar Henrique na véspera do aniversário e somente trazê-lo no exato momento da festa.

A essa altura, o jardineiro e os dois profissionais de recreação são os únicos cientes do que vai acontecer. A surpresa será para o aniversariante e os convidados.

E assim se fez.

Chegou o dia do aniversário. Todo o terraço da casa está enfeitado. Figuras de dinossauros distribuídas pelas paredes. Uma grande mesa comportando o bolo, com formato de dinossauro, e tigelas com guloseimas. O casal de profissionais da recreação, fantasiado de palhaço, entretém os convidados que vão chegando e se achegando.  A festa começa.

 O jardim da casa é extenso. Lá no portão aparecem Henrique, Luiz e a tia Ana Emília. Os amigos correm para recebê-los em algazarra. O aniversariante não teve qualquer chance de perceber algum reboliço no jardim. Avança, festejado, e entra na brincadeira.

Cantam, dançam, pulam, correm, medem força, fazem teatrinho, fazem  mágica, sorteio...  Excelente recreio.


Aí, é chegada a hora de cantar “parabéns”, apagar a vela e partir o bolo. Vai tudo correndo bem nesta mesma ordem. No instante em que o aniversariante dá o primeiro corte no bolo, o jardineiro, avisado, grita bem forte, através de um alto-falante:

Estão nascendo dinossauros!”...   “Corram, estão nascendo muitos dinossauros!”...  - E começa a remover as placas de grama sintética, atirando-as para bem distante.

Os garotos convidados, comandados pelos dois palhaços, correm para o local e cada um pega o seu dinossauro inflado e com o corpo recheado de balas e chocolates. E se questionam:
 
Como pode ter acontecido isto?  Passamos aqui há pouco tempo, pisamos na grama e não vimos qualquer vestígio de buraco na terra!  Como pode?

Henrique fica parado diante do seu bolo, atônito, sem acreditar no que está vendo. Mais ou menos a mesma quantidade de ovos de galinha que ele plantou está ali, agora, transformada em dinossauros.  Cessada a barulheira, vendo cada um dos seus convidados com um dinossauro relativamente grande debaixo do braço, resolve contar o seu sonho. Não encontra jeito nem forças para falar.
 

Dona Raïssa, então, toma a palavra e esclarece:

Acreditando num sonho, Henrique plantou ovos de galinha para nascerem dinossauros.  Pronto!    Aí está, nos braços de cada um de vocês, a realização de um sonho.  Acreditem nos seus sonhos!”. 
 

Aplausos e muitos abraços no garoto que sabe guardar segredo, mesmo que se refira a um  sonho  impossível.
 

Sobrou um dinossauro, graças!...   Dona Raïssa dependurou-o na parede do quarto do filho.   Diz achar que eram exatamente assim os dinossauros recém-nascidos.   Quando o filho sente que o objeto do seu sonho está perdendo forças, a mãe o enche com o seu próprio oxigênio.
 

Essa pobre mãe só se desespera quando não encontra jeito de responder a mais alguma pergunta do filho, tal como:

- “
Mamãe, você está lembrada se, há sessenta e cinco milhões de anos, já existia material plástico?”

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NOTA: 
Agradecemos a importante participação da mamãe e vovó pernambucana, Maria das Graças Pereira Mourato de Barros,  na  composição  deste conto
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Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 26/06/2011
Alterado em 30/12/2013


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