Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

 

JOÃO ROBERTO, ASSASSINADO PELA DITADURA

 

Conheci-o adolescente (1962), iniciando o curso científico, no Liceu Paraibano, e auxiliando o pai - Francisco Xavier Borges -, no transporte de passageiros em ônibus de  propriedade da família, tão desgastado quanto a própria estrada mista de 18 km em que rodava - entre Cabedelo e João Pessoa.

Rapazola de 16 anos de idade, João Roberto incumbia-se da cobrança das passagens. Cumprimentava educadamente, um a um, os usuários daquele transporte coletivo, modesto ganha-pão da família.  Como transporte urbano era, aliás, o único concorrente do trem, que também percorria o mesmo trajeto, embora em intervalos mais elásticos.

À época, João Roberto aproximou-se do meu grupo de amigos: Solemar, Rivaldo, Genésio, Iron, Heleno, Arlete, Valdenice, Valdete... - quando decidimos fundar a União Cabedelense de Estudantes Secundários (UCES).  Vira, ali, o caminho para tornar-se um destemido orador - seu sonho de jovem. Confidenciava ser admirador da verve de Luiz Fragoso, nosso conterrâneo e tribuno dos mais elogiados em toda a região.  Fragoso figurava sempre entre os primeiros a discursar, com brilhantismo, sempre de improviso, na recepção de notórias autoridades públicas, bem assim nos eventos cívicos e festivos organizados pela comunidade.  Com certeza, um ídolo - admirado por todos os jovens estudantes de sua geração.  

Cabedelo - à época com população de quase vinte mil habitantes - orgulhava-se de ser:

a) uma cidade em cujo porto marítimo ancoravam navios que desbravavam todos os mares; 

b) uma cidade ferroviária com início e fim de linha dos trens que percorriam todo o interior da Paraíba e ali dormiam;

c) uma cidade histórica, guardiã de um forte quadricentenário, visitado por turistas de todo o país, com os quais parte da população interagia;

d) uma cidade que concentrava os principais sindicatos de classe do Estado, dentre os quais: sindicato dos portuários, dos estivadores, dos conferentes, dos doqueiros e dos ferroviários, além de uma colônia de pescadores.

João Roberto frequentava a todos, quando o tempo lhe permitia.  Acompanhava a organização e a oratória, mesmo rude, dos sindicalistas, batalhadores entusiastas sempre em luta por uma causa grupal. 

Era esse, sim, o salutar ambiente que propiciou a formação do seu caráter, aliás, do nosso caráter.

Escolas precárias, à época, alcançando, no máximo, o primeiro ciclo do curso secundário, ou ginasial  (nível fundamental nos dias de hoje).

A UCES, que nos aproximou em 1962, iniciou um projeto para alfabetizar toda a comunidade.  Os sindicatos seriam os estratégicos pontos de referência.  Lançou a campanha: "AJUDE-NOS A DIZER:  CABEDELO SABE LER".  João Roberto se empolgou em demasia, anunciando o projeto, inclusive, no Congresso Estudantil da AESP (Associação dos Estudantes Secundários da Paraíba), realizado em Guarabira-PB. Às entidades estudantis de todo o Estado, ali reunidas, apresentou o esboço inicial da campanha.

O ano seguinte, 1963, foi bastante conturbado:  renúncia do presidente Jânio Quadros; forças armadas impedindo a posse do vice João Goulart; sindicatos atuando, organizada e fortemente, em busca de direitos trabalhistas, inclusive salários mais dignos.  A pressão sindical, apoiada pelo movimento das Ligas Camponesas (não haviam sindicatos rurais), provocou a reação das Forças Armadas.  Muitos movimentos de rebeldia foram surgindo, principalmente em João Pessoa e Campina Grande.  Não nos consta que João Roberto tivesse participado ativamente de qualquer um desses movimentos, àquela altura já considerados subversivos. 

Admirávamos a vivacidade verbal de líderes sindicais e ruralistas que se expressavam em público sem esboçar qualquer timidez, dando os seus lúcidos e eloquentes recados.  Essa corajosa ousadia democrática se expandia em todo o país. Pressentíamos a aproximação  do dia do "basta".

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Os EUA espalhavam a paranoia do comunismo, no Brasil e em toda a América Latina. Combater os movimentos sociais, portanto, no pensar norte-americano transmitido para os militares, era combater o comunismo.  Poucos intelectuais sabiam o verdadeiro significado de "comunismo".  Eu e João Roberto também, mas ele via com interesse as reuniões sindicais, cada vez mais férvidas. Invejava

os operários e homens do campo, analfabetos, discursando eloquentemente em favor das causas sindicais e das Ligas Camponesas.  - "É isso que é comunismo?" - Perguntava-me, inocentemente.

Aí, as Forças Armadas, não só do Brasil, mas de seis países da América Latina, se subordinam aos interesses norte-americanos e implantam regimes ditatoriais com a tomada do poder à força, "perigosamente" nas mãos dos civis. - "Precisavam combater o comunismo" - resmungavam os conservadores.  A força, como sempre, venceu.  Eu tinha 23 anos.  João Roberto, quase 18. 

No Brasil, a tomada do poder pelos militares ocorreu, exatamente, na madrugada de 01/04/1964. Os rádios de todo o país, dia e noite ligados, são as mais fiéis testemunhas.

Por uns dias, cessam as comunicações no país.  Notícias pérfidas, inconfiáveis e desencontradas.

Paramos nossas reuniões por precaução (reuniões de qualquer tipo eram proibidas).  A UCES acabou de fato, embora ainda exista de direito.

Sindicatos fechados.  Todas as bocas fechadas.

Assistimos, inertes e inermes, à morte do sindicato dos ferroviários, o mais forte em todo o país, que sofreu a maior de todas as represálias:  a primeira das medidas tomadas pela ditadura foi paralisar e arrancar todos os ramais ferroviários no país. Resultado óbvio: desemprego e muito desespero.

Em outubro/1964, fui nomeado para uma Sociedade de Economia Mista, tendo que assumir numa agência em Itabaiana-PB.  Ao mesmo tempo, João Roberto se prepara para ingressar na faculdade de medicina (UFPB).  A partir daí, cada um num caminho diferente, nos desencontramos.

Em 1968, tomei conhecimento de que João Roberto assumira a liderança da associação universitária de medicina.  A essa altura - supus -, hábil orador. Com absoluta certeza, foi aí que ele se desinibiu e desenvolveu sua verve oratória, conforme um dia sonhara.

Também tomei conhecimento das diversas vezes em que ele foi preso (quatro vezes, entre 1968 e 1969 - falaram-me, em surdina).   Por último, tinha estado no DOPS em Recife.  Motivo das prisões:  atos contrarrevolucionários.

Liberado após três meses, com marcas da tortura, voltou para a casa da família, em Cabedelo.

Quem sabe, ingenuamente, teve alguma oportunidade de falar em! público na sua terra.  Era o seu sonho.  Não sabia que estava sendo vigiado?!...  Sabia, sim!  Conforme vimos pela TV, um ano atrás, a Comissão Estadual da Verdade deixou claro que ele assinara uma carta comprometendo-se a ficar quieto (se não...). 

Abro um parêntese para expor o caso semelhante de Francisco Almeida (Chico Veneno): 

- Em Itabaiana-PB, também tive esse amigo em situação idêntica, que, depois de aprisionado várias vezes e torturado, assinou uma tal carta de arrependimento e levou-a a sério. Voltou à sua terra. Antes, vinculado a movimentos de esquerda, viu-se na obrigação de trabalhar para a eleição de políticos da direita.  Sempre cabisbaixo, não tinha nem podia dar explicações, senão (...).  Depois de alguns anos de quase completo isolamento, suicidou-se.

Voltando ao caso João Roberto:

Poucos dias depois de novas falas, nova prisão (ou sequestro), desta vez feita pelo CCC (até aí, eu não sabia que ele se filiara ao Partido Comunista Brasileiro - Verdade?).  Foi a última viagem do seu corpo, que apareceu três dias depois do sequestro, boiando no açude Olho d´água, em Catolé do Rocha (PB).

O Açude Olho d´Água, em Catolé do Rocha, lembra o Cangaço, a rigidez do coronelismo...

A ditadura, do começo ao fim, mereceu amplo e irrestrito apoio dos grandes proprietários de terra.

Quem fala nesses assuntos, ainda hoje, em favor da Democracia, está sujeito a revezes golpistas.

João Roberto morreu num desses revezes, em 10/outubro/1969..., porque falava.

 

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 10/10/2025
Alterado em 26/10/2025


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