Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

É SECULAR A ARTE DE DESEDUCAR

 

 

Este conto é real.  O fato se deu, inicialmente, na cidade portuária de Cabedelo e só veio a ter um ponto final uns vinte anos depois, em João Pessoa, capital do Estado da Paraíba. 

A esta altura da vida, mais de setenta anos passados, não enxergo nenhuma descortesia ao mencionar os prenomes dos personagens. Julgo que estamos todos mutuamente anistiados.

 

Ainda eu era criança. No meu nono aniversário, ganhei da minha mãe uma caneta, "moderníssima" para a época (tinha em seu bojo uma bombinha de borracha que sugava e reservava boa porção da tinta de um tinteiro, e a gente escrevia horas e horas sem se preocupar em molhar a pena). Uau!!... A partir dessa invenção, o mundo passou a escrever mais rápido! 

Por pura vaidade, levei-a à escola no dia seguinte para apresentar a novidade aos colegas de minha classe...  Como esperado, foi uma festa.

- "Veio da França?" - .Perguntaram-me, depois de identificar uma marca.

Respondi que não:  - "Minha mãe viajou até Recife (coisa rara) e deve tê-la adquirido por lá mesmo"...  Outro motivo de orgulho tolo:  Viajar de Cabedelo a Recife era uma aventura muito cara - e que só a elite podia bancar.  Éramos todos reconhecidamente pobres.

Enquanto as perguntas se repetiam, a caneta fazia sua lenta viagem, de mão em mão.

Aí - pluft -, como num passe de mágica, desapareceu ali mesmo  na sala de aula. 

Achei que era só uma brincadeira.  Esperei que até o final da aula alguém ma devolvesse. Nada...  Ninguém...   

Ivan, um dos colegas, viu quem a escondeu - o primeiro a sair da sala de aula - e se prontificou a me levar até a casa do "gatuno" aprendiz.

Aceitei.  Fui na certeza de reaver diplomaticamente o meu valioso presente de aniversário. Como eu iria explicar à minha mãe que o havia perdido?!...

Esperançosos, encontrávamo-nos - eu e Ivan - já debaixo de uma mangueira ao lado do casebre onde o pequeno "gatuno" morava. 

Bati na janela:  - "Ó de casa, Zefélix está aí?"...

Atendeu-me um senhor idoso, acho que sexagenário (o avô de Zefélix, por certo), que escutou minha nervosa narrativa acerca do desaparecimento da caneta e logo me despachou com esta deseducada e dolorida expressão:

- "Se ele achou, não é mais seu, é dele".

E fechou a janela com fúria leonina. Vi, indignado, que seria debalde a minha réplica.

Em lágrimas, dei meia-volta, decepcionado, frustrado e muito irado...

Mas a vontade de ir adiante gritava mais alto. 

De repente, ao caminhar de volta, percebi que estava na mesma rua da delegacia de polícia.  Com toda minha inocência, adentrei na sala de atendimento - Ivan não mais me acompanhava - e procurei expor o meu caso a um soldado, o plantonista, que de imediato me interrompeu, informando que eu, menor, deveria expor o assunto primeiramente para o meu pai, ou outra pessoa adulta responsável por mim.  Adiantou que, acompanhado dessa pessoa, procurasse o delegado, que naquele instante saíra para o almoço, mas retomaria o seu expediente a partir das três da tarde. 

Raciocinei rápido.  Achei que o assunto poderia ser resolvido informalmente, amigavelmente, na base da conversa coloquial entre dois adultos.  Nada de registro em máquina de escrever ou de chamada à atenção de quem quer que seja...  Além de ridículo, tudo se complicaria.

Dei meia-volta, ainda na sala de atendimento, e indaguei ao mesmo soldado:

- "Onde mora o delegado?" - Ao que ele prontamente me respondeu: 

- "É aqui nesta mesma rua, naquela casa da esquina, antes da linha do trem, e que tem uma enorme mangueira ao lado".

Congelei:  

- "Será que o delegado é o avô de Zefélix?!"...  

Aquietei-me. O tenente Caetano era conhecido na cidade como um delegado carrasco.  Nunca mais toquei no assunto para ninguém, nem mesmo para a querida mãezinha, que acreditou piamente na minha versão:

- "Perdi a caneta a caminho da escola, talvez correndo nas areias quentes e fofas das ruas".

E, assim, o tempo foi descartando, pouco a pouco, todas as novidades da época de minha infância.

Cerca de duas décadas depois, encontrei-me, por acaso, com Zefélix.  Nós nos reconhecemos à primeira vista.  Juro que nem me chegou à lembrança a história daquela canetinha encrenqueira!... 

Ele estava cuidando de um jardim na Praça 1817, frente ao Palácio do Governo do Estado - e entre o Paço da Justiça e a Assembleia Legislativa.

Parei, abraçamo-nos e conversamos.  Revivemos alguns bons momentos do tempo de escola.

Só alguns minutos depois, percebendo o olhar atento de dois policiais à meia distância, é que a "minha ficha caiu".

Zefélix era um detento, considerado réu primário e bem comportado, que cumpria pena de 15 anos em regime fechado.  Exercia aquele trabalho externo com o fito de obter a benesse legal de diminuição da sua pena.

Sinceramente, não perguntei, nem sei, nem jamais pretendi saber, a gravidade do crime que ele cometeu.

Depois desse breve encontro é que me veio à mente a história da caneta. História e caneta já por demais ultrapassadas.  Saí dando vivas às esferográficas!...

Só um pressentimento esteve sempre devaneando em meu inconsciente:

- "Zefélix não deve adorar o seu avô".

 

                                                             (fernandoafreire.net)

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Nota:

Catei esta história no baú de minha memória com o intento de afirmar que, comportamentalmente, nos últimos setenta anos, seja no Brasil, em Jerusalém ou na Palestina, seja no mundo inteiro, nada ou quase nada mudou no corpo ou na  alma do ser humano.  Vale lembrar o ocorrido na capital do nosso país, bem recentemente (20/10/2025):

Um professor de 53 anos foi agredido dentro do Centro Educacional 4 do Guará, em Brasília, depois de pedir que uma estudante parasse de usar o celular durante a aula (excerto extraído do Google). 

A aluna aciona o pai, que, de imediato, invade a escola e desfere nove socos contra o educador.  É a Lei 15.100, de 13/01/2025, que não mais permite o uso de celular em sala de aula.  A aluna e seu pai protetor, agrediram a Lei, antes da agressão ao professor.  A Lei não vale para os deseducados.

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Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 04/11/2025
Alterado em 13/11/2025


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