Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

MILEI QUER TAPAR O SOL COM A PENEIRA

 

 

"Milei compartilha post com mapa que retrata Brasil como favela e exalta Argentina futurista (O Globo, 16/12/2025)". 

 

"Há cegos míopes"

- respondeu a Milei, antecipadamente, Jorge Luis Borges (1899-1986), o literata mais premiado da literatura argentina e um dos maiores escritores de língua espanhola do século XX. Nada obstante ter vivido mais na Europa do que na América Latina, abordou temas da realidade e condições humanas, pois que havia conhecido de perto a pobreza e a riqueza de sua gente e de sua região.  Ganhou uma cegueira parcial, já em idade avançada, que lhe afetou a visão, claro, mas que o tornou ainda mais literário e profundo "observador" dos problemas sociais do seu mundo.  Suas obras foram traduzidas para mais de 38 idiomas e muito lidas, inclusive, no Brasil, Uruguai, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Colômbia, conjunto de países que o temporão, chamado Milei, aponta no seu mapa como a grande favela vermelha da América Latina. Para Milei, conforme ele próprio declarou, Jorge Luis Borges era um "comunista" (Seguramente, para nos fazer relembrar o tempo do macarthismo  nos Estados Unidos - operação "Caça às bruxas" na metade do século passado - que ele e seu tutor, Trump, pretendem reimplantar no nosso Continente). 

Aliás - permitam-me fazer mais um comentário paralelo -, a Argentina sobrevive, econômica e financeiramente, graças a um empréstimo de vinte bilhões de dólares, via FMI, que Trump concedeu ao pedinte, Milei, em setembro/2025, um mês antes das eleições legislativas.  Já passamos por isso, cá no Brasil, Milei, da fase terminal da ditadura até o início deste século. Sabemos que é uma circunstância humilhante.  Enquanto nas rédeas do FMI, o país perde a sua autonomia, digo: soberania. Vira um "pau mandado".  Melhor ficar quieto, não, Milei?!...

 

FAVELAS NO BRASIL: nenhuma vergonha.

As favelas brasileiras remontam à época das mal traçadas linhas da abolição da escravatura, mal planejada e não executada a contento.  A título de comparação, a libertação dos escravos nos Estados Unidos ocorreu 25 anos antes da nossa.  Lincoln, em 1863, por decreto, obrigou a indenização dos escravos com terra, gado e numerário, a ser cumprida pelos seus respectivos proprietários.  No dia seguinte à libertação, os ex-escravos eram tratados e respeitados como cidadãos norte-americanos.  Hoje, Lincoln seria chamado de "comunista" por Trump, Milei e catervas, por que não?!...

No Brasil escravista - "não comunista" (?) -, no dia seguinte à "abolição", os escravos foram segregados e abandonados à própria sorte.  Muitos se afugentaram estrategicamente para áreas de risco e de difícil acesso (morros e encostas),   O poder era exercido pelos senhores de um mundo patriarcal, que tinham pleno direito de castigar e traçar o destino dos seus serviçais. Eram os mesmos senhores que se opuseram à Guerra dos Canudos e, por tabela, ao líder religioso Antônio Conselheiro, de quem os "sem nada" (dentre eles, os ex-escravos ou fugitivos) eram seguidores em maior escala. Os senhores do poder - na maioria carrascos - seriam hoje os grandes expoentes da direita ou extrema-direita, como o são os seus herdeiros, políticos e afortunados latifundiários. A história mantém uma sequência lógica.

E agora o que mais importa:

- o nome FAVELA teve berço na Bahia. Numa região montanhosa, onde muitos negros, influenciados por Antônio Conselheiro se abrigaram estrategicamente. Existia ali uma planta leguminosa com aspecto de fava, de vagem muito pequena.  Favela, portanto (nome derivado de fava), passou a ser a denominação daquela região baiana.

Segundo Euclides da Cunha: "As favelas são anônimas ainda na ciência - ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus".  (Tabaréu - termo de origem tupi: aquele que prefere ficar na taba).  

A favelização é o resultado da migração de negros ocorrida no período da urbanização e da industrialização dos grandes centros.  Como já acostumados, os negros migrantes ocuparam as regiões montanhosas, no entorno das cidades, onde reimplantaram as suas favelas (moradias vulneráveis).  Manteve-se a característica de "Casa Grande e Senzala", visível semelhantemente nas grandes propriedades rurais.

Renomados compositores brasileiros criaram e cantaram a beleza romântica dos redutos favelados:

- "Barracão de zinco, sem telhado"...

- "...pois quem mora lá no morro, já vive pertinho do céu.  Tem alvorada, tem passarada ao alvorecer, sinfonias de pardais anunciando o anoitecer"...

Infelizmente, Milei é um cego míope da extrema-direita, que repudia até o romantismo extraído da história de quem vive e ama a sua comunidade e não esconde sua origem..

Favelas fazem parte da nossa história, decorrem da perseguição aos escravos pelo açoite do chicote, arma à época dominante.  E os dominadores, grandes latifundiários, repeliam o social, assim como ainda o fazem as suas crias, i.e., os seus herdeiros, hoje vigas-mestras e aplaudentes dos regimes autocráticos, do fascismo, do nazismo e de tudo o que se contrapõe à democracia e à sobrevivência dos que nada têm. 

Imaginem o que aconteceria, se nossos ex-escravos lhes fossem cobrar indenização!!...

Ah, sim, faltou dizer mais uma verdade! 

Na Argentina não tem favela (Claro que não!  Isso é coisa do Brasil), mas amigos meus viram algo parecido com favela e miséria, em Buenos Aires e em Rosário, na província de Santa Fé.  Miséria propriamente dita, não era, por certo!...

Porque na Argentina, os miseráveis morrem de frio nas calçadas. 

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 23/12/2025
Alterado em 28/12/2025


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