

SOCORRO!... MEU OUTRO LADO ESTÁ MORRENDO!...
Hoje, acordei sozinho. Meu outro lado ainda dormia e eu não quis despertá-lo. Ele é muito jovem, ou se imagina assim: pressão normal, baixo nível de colesterol, frequência cardíaca de criança, memória meditativa competindo com a consciência contemplativa, que ultimamente tem andado mergulhada no afeto, no emocional... Convém não acordá-lo. Deixá-lo-ei por algum momento viver nesse estágio de ignorância.
Acontece que eu - cabeça, tronco, membros e alma - quero viver. A enrascada é que, sem meu outro lado, vou murchar, vou fenecer!... Mais certo mesmo é eu preparar o café da manhã só para mim, inteiro, sem deixar sobra praquele meu outro lado companheiro, meu suco de vida e pão fatiado, que prefere esquentar o travesseiro. Quem sabe, finge dormir, só pra não ser mais meu comensal habitual. Um tanto mal humorado, diz sempre não querer ser incomodado.
Arre lá!... Tanto sono, por quê? Vou chamá-lo!... Vou gritar!... Vou arrastá-lo!...
Debalde meu intuito de alimentá-lo, impossível reanimá-lo... É que meu outro lado desapareceu, lentamente, até morrer de verdade.
Certamente sonhando com um novo lar, convivendo com outro par, a quem deve ter narrado alguns lances do seu e do meu passado.
Falo de uma fatia de mim, que o tempo levou, triturou e engoliu. A que fica está resignada, embora recheada de silêncio.
Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 11/01/2026
Alterado em 29/01/2026 Comentários
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