Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

CUIDADO, AZAR É DOENÇA CONTAGIOSA!...

 

 

Não faz parte dos meus hábitos usar palavras incondizentes com o meu estado de espírito e com meu jeito quase sereno de interagir.  Às vezes, obrigo-me a ficar quieto quando algo desagradável traz o propósito de me atingir e de instigar-me ao revide. É que aprendi a comportar-me de modo a nunca imitar um meu casual ofensor. De que valeria rebater, por exemplo, uma expressão imoral - seja um palavrão, seja um desdém - a mim dirigida, se sempre achei que retribuir uma ofensa no mesmo tom é incompatível com os meus princípios?  Poderia até dizer que essa é uma das boas razões por que ainda falo, ainda escrevo ou - resumindo - ainda existo...

Da mesma forma, tenho evitado comentar qualquer ato (ou fato), infeliz e inesperado, com o que certas pessoas, ao tomarem conhecimento, se alarmam e logo associam tal ocorrência (negativa) ao azar.  Pura superstição, coincidência, causalidade ou casualidade.

Desgraças e infortúnios acontecem esporadicamente. São eventualidades que desaparecem até no mesmo dia, antes de a Terra completar o seu giro. Fazem parte da história de cada ser vivente, pois que nosso planeta rodopia incessantemente.

Desagradável e estranho é quando essa "má sorte" vez ou outra se repete, como se a Terra tivesse girado no sentido contrário. Se acaso me atinge ou ao menos me tangencia, esforço-me para me esquivar e me proteger até que a tempestade cesse e a bonança ressurja.  Simples, assim!

Há, todavia, certos azares que não são tão "simples assim". Repetidos intensamente, nas mesmas circunstâncias e quase sempre com as mesmas criaturas - pessoas objetivas ou pessoas subjetivas -, me fazem duvidar de que se trata simplesmente de algo acidental. Adianto que, pra mim, tudo há de partir do natural, mas... 

Diante de situações dessa ordem, confesso que não consigo reagir tal como um monge. 

Isso acontece quando o ofendido não sou eu diretamente, mas uma coletividade, mormente aquela à qual pertenço. 

Aí, sim, a coisa muda!  Na hora de reagir - claro - eu me igualo aos demais membros do meu grupo, ou da minha comunidade, como se estivesse num coro musical ou engajado com eles, seja numa passeata, seja em qualquer outra manifestação pública...

Viram como mudei, na mesma hora em que deixei de ser singular e passei a me ver plural?!... Pois é!... Aprendi também que ninguém é de ferro.  Há situações em que preciso refletir com profundidade e, se o risco não se apaga, só se alastra, como se fosse uma labareda que a tudo destrói, cabe-me, na medida do possível e como ser racional agora pluralizado, salvar, não somente a minha pele, mas, ao mesmo tempo, esforçar-me ao máximo para retirar das chamas os integrantes do meu grupo.

"A empatia acontece quando nos conscientizamos de que não somos singulares".

Às vezes, arrisco-me a descer um enorme despenhadeiro com eles, com o maior cuidado possível, visando  alcançar a parte plana, que a vista alcança lá embaixo.  Só que esse cuidado deverá ser redobrado exatamente na chegada ao plano, porque é lá que alguns leões podem estar à espreita.

E aí?!...  Preciso encorajar o meu grupo: "Não vamos descansar atirando-nos às feras!     

Acho que só agora cheguei no plano desejado, na área aparentemente mais segura, mesmo sabendo que há leões famintos nos arredores, atiçados pelo cheiro de nossas carnes.  De repente, os rugidos intimidadores de um deles - como se fossem palavrões - ferem os meus tímpanos.  Tiro logo minha conclusão: é o rei dos animais, urrando palavrões para monitorar sua manada.  Ensinaram-lhe a estratégia de ensurdecer todo o seu reino a fim de melhor administrá-lo.  Aderiu à ideia de que urrar palavrões é um meio eficaz de convencimento.

A meu ver:

- Quem se inspira em palavrões para administrar um grupo social, uma empresa ou mesmo o país, com certeza, com absoluta certeza, está mais perto do AZAR do que do SUCESSO.

- Para ser mais claro:  está bem mais perto do demônio do que de Deus (porque, desde o primeiro palavrão, Deus já se encontra a mil léguas de distância).

 

Até posso citar alguns exemplos de azares, recém-acontecidos em nosso país, a fim de clarear melhor o meu ponto de vista.

Vamos lá:

 

- Todos os militares, principalmente os de alta patente, que atuaram junto ao último ex-presidente do nosso país (cuja oratória vem sempre lambuzada de palavrões), estão legalmente presos, condenados que foram pelo STF, sujeitos à perda de suas patentes, se o STM assim o decidir ainda neste semestre.

 

- A pandemia do COVID-19 - o Brasil sentiu - proliferou exatamente após uma reunião ministerial de abril/2020, em que o mesmo ex-presidente, em menos de uma hora, urrou exatas 43 palavras de baixo calão (palavrões ensurdecedores) dirigidas aos seus pacatos ministros e à humanidade (Por incrível que pareça, a religiosa, ministra Damares, estava presente e, por certo acostumada, sequer se escandalizou).  Para suavizar sua arrogância, o então presidente, como sempre o fazia nos seus discursos, terminou a reunião falando em "Deus, pátria e família", contudo: as famílias que viram o vídeo ficaram chocadas; a pátria, obviamente, estarrecida; e Deus, exceto o seu deus de mentirinha, não viu motivos para abençoar aquele encontro. Começou aí a decadência de um "mito". O mundo assistiu a um azarado desastre histórico.

 

- Se bem me lembro, no começo da gestão desse mesmo ex-presidente tinha um Ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, nomeado no começo de 2019, que se chamava Gustavo Bebianno Rocha.  Dr. Bebianno já havia prestado serviço de advocacia em 2014 ao ex-presidente (então deputado federal).  Prestou também grande apoio na campanha eleitoral de 2017/2018, que elegeu seu cliente presidente da República.  Chegou a ser vice-presidente do PSL em 2018, ao qual seu cliente era filiado.  Infelizmente, um tropeço. Renunciou ao cargo de ministro da Secretaria Geral em 18/02/2019, depois de uma discussão com o vereador do Rio de Janeiro, Carlos, filho do presidente, que, à sua revelia, quis impor, em Brasília, manobras políticas antidemocráticas exatamente em seu ministério, em conluio com o pai, presidente. Dr. Bebianno voltou para Teresópolis-RJ para dar continuidade aos serviços de advocacia. Homem jovem e saudável, Bebianno, misteriosamente, sofreu um infarto fulminante alguns meses depois do conflito e da renúncia. 

A isto, sim, sem um pingo de superstição, eu chamo de azar premeditado, ou pressentido.

 

- Sérgio Moro - Juiz de 1ª Instância, mas de prestígio internacional por estar à frente da fatídica Operação Lavajato, tinha uma carreira traçada a quatro mãos com o seu presidente, a saber:  renunciou ao cargo de juiz para assumir o Ministério da Justiça, nomeado que foi pelo amigo presidente;  pelos planos acordados, somente deixaria o ministério quando mais adiante saísse candidato à Presidência da República ou, por outra, quando indicado magistrado do STF. 

Acabou desentendendo-se com o seu amigo presidente, que, à sua revelia, nomeara diretor da PF, em Brasília, um mero conhecido da família.  Em 24/04/2020, o ex-juiz Sérgio Moro, vendo-se desprestigiado, renuncia ao cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública.  Desempregado, candidata-se ao Senado, em 2022, pelo Paraná, e é eleito.  Por puro azar, hoje responde a processo no TSE, por exorbitante gasto na campanha, correndo o risco de cassação.

 

Daniel Silveira, aquele cobrador de ônibus que roubou o carimbo de uma médica para forjar atestados médicos falsos, que justificavam constantes ausências ao trabalho, suas e dos seus pares.  Mesmo processado, conseguiu entrar para a polícia militar, onde somou 80 dias de prisão e 60 registros de sanções disciplinares, além de 14 repreensões e duas advertências por transgredir o serviço policial militar, postando vídeos com conteúdos ofensivos. Prestes a ser expulso da unida militar, candidatou-se a deputado federal pelo RJ, em 2018, na onda de um amigo (velho político com carreira cheia de traumas, mas apresentado como salvador da pátria), tendo sido um dos mais votados.  !!!!!  Sei que os cariocas não merecem, mas sou obrigado a evocar Cícero: "Os iguais facilmente se juntam". Como parlamentar, Daniel Silveira chegou ao auge de desqualificar com veemência e violência o STF, sendo processado, julgado, condenado, e preso numa colônia agrícola da baixada fluminense.   Recebeu indulto do seu par, então presidente da República, mas, por continuar suas agressividades contra o Supremo, voltou à cela.  Mandato cassado, retira-se da sociedade e da vida pública, agora, sem qualquer fonte de renda. Conseguiu, com seus desventurados atributos, forjar e carimbar o seu próprio azar.

 

Depois vem o caso da ex-deputada federal, Carla Zambelli, que tentou matar um negro com sua arma de campanha (2018), fora outras falcatruas informatizadas e antidemocráticas.   Condenada, fugiu para a Itália, onde está presa.  A Justiça italiana, em 11/02/2026, decidirá sobre sua extradição ou não.  Seu azar, não menos racista, foi colocar um negro à sua frente para praticar "tiro ao alvo".  Presa e sem mandato, também não tem do que viver.

 

 Poderia citar muitos outros azarados - presos, fugitivos e refugiados -, mas prefiro mencionar um deputado federal que também não tem se dado bem com sua ligação com o ex-presidente. Trata-se do deputado mais votado do Brasil (influencer), Nikolas Ferreira, muito próximo ideologicamente do ex-presidente.  Organizou recentemente uma marcha de 250 km com seus seguidores, a pé mesmo, de Belo Horizonte a Brasília. Motivos eleitoreiros e fora da agenda parlamentar. Como esperado, faltou apenas inteligência para fazer previsões meteorológicas constantes e atualizadas. Afinal, ele conduzia gente, não uma manada, que foi atirada aos leões, sob o irresponsável grito de:  "Salve-se quem puder"...

É que, na chegada em Brasília, urros de trovões se fizeram ouvir, e, para o azar ficar sacramentado, um raio cai sobre a multidão, deixando mais de 80 fanáticos gravemente mutilados.  Um azar que caiu do céu.

 

- Quer ter azar pro resto de sua vida, junte-se a quem profere palavrões e. cinicamente, disfarça, usando o nome de Deus em vão.  Não vi ninguém, até agora, que se aproximou de gente dessa espécie e se deu bem.

 

"Ah, mas são fascinantes e já deram bom resultado os palavrões!...  Não vê que quem os empregou em campanha - pouco importando o azar que atraiu e transmitiu - arrebanhou multidões e, como salvador da pátria, até já se elegeu Presidente da República!" -  Refutou, por seu turno, um certo azarado, conformado. 

 

Pior: o aquinhoado, agora um simples "mito", destacado somente pelos olhos azulados, exibe um comportamento negativo, tão prejudicial e inadequado que, para o azar de nossa democracia, continua, inexplicavelmente, atraindo adeptos religiosamente fanatizados. 

 

Realmente, Cícero: "Os iguais nem se juntam mais - se agarram".

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 04/02/2026
Alterado em 18/02/2026


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