

POR ONDE ANDA DONA IOLANDA? Lembro dela ainda com quatro filhos pra criar. O marido de dona Iolanda era seu Paulo, guarda-freios de trens, função que lhe rendia o menor salário da ferrovia. Viajava e só um dia na semana retornava. Dona Iolanda que se virasse para complementar o alimento da família, o vestuário, a medicação (quando necessário) e, afora seus outros afazeres de dona de casa e lavadeira de roupa da vizinhança, ainda encontrava tempo para acompanhar os deveres escolares dos filhos. Lembro dela, batalhadora de então, como se fosse hoje. Lavava e esfregava cada peça de roupa à mão, com água de cacimba e sabão em barra. Depois, punha tudo pra secar numa corda esticada no quintal ou no varal. Quando chovia - upa!… -, quando chovia as cordas eram esticadas dentro da casa: sala, quartos, corredores, cozinha… Lavava com água da cacimba: puxada com uma lata de cinco litros, que era presa a uma corda e puxada à mão. Um trabalho leve do qual eu, com oito ou nove anos, me incumbia. Leve, sim! Leve porque o pesado sempre vinha no final. Quando a roupa secava, precisava ser passada a ferro. Ferro esquentado a carvão, cujas brasas eram assopradas com um abano de palha. Eu o abanava, com cuidado para as fagulhas não se espalharem sobre a roupa. Eu, canhoto, fui obrigado a abanar o ferro com a mão direita. Ela também me obrigou as escovar dentes e escrever com a mão direita, movimentos que a mantinham vigilante. “Só utilizar a mão esquerda é falta de educação” - dizia. Fiquei ambidestro, mas, quando cresci, descobri que ela era canhota tanto quanto eu. O bom era fazer a entrega da roupa aos fregueses. Na maioria das vezes, ofereciam-me uma gorjeta, que eu passava para dona Iolanda comprar o pão nosso do jantar. Ela passou todo o seu dinamismo para os filhos, para as filhas principalmente, que viraram donas de casa e que, pelo que sei, nunca precisaram de domésticas para a auxiliarem. Deduzi que dinamismo é comportamento aprendido que transita de mãe para filhas e filhos. Hoje, Dia das Mães, faz onze anos que dona Iolanda, minha mãe incansável, partiu. Por suas lutas como lavadeira e pelos sofrimentos que marcaram sua vida de humildade neste plano, creio, firmemente, que ela tenha tomado o caminho dos céus. Quem sabe, as vestes do Senhor também careciam de uma boa lavadeira! Só de uma coisa eu sei, com absoluta certeza: Ela partiu com a alma lavada. FELIZ “DIA DAS MÃES” PARA TODAS AS MÃES E SUAS QUERIDAS MAMÃES DA TERRA OU DO CÉU! Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 10/05/2026
Alterado em 10/05/2026 Comentários
|