Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

CHICO BUARQUE AMEAÇADO DE MORTE

“Adoraria abreviar a vida desse desgraçado!”

Um médico inscrito no Conselho Regional de Medicina (CRM) de Minas Gerais, de nome ainda não revelado, com a expressão acima, jurou de morte o cantor e compositor Chico Buarque, na seção de comentários de uma notícia publicada na coluna da jornalista Mônica Bérgamo - Folha de São Paulo - 28/09/2026.

Os motivos torpes da ameaça:

  • Chico Buarque, num pequeno show junto com outros cantores, seus antigos contemporâneos, pediu votos para os candidatos lançados pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) nas eleições de 04/out/2026.

  • Bem feito! O que eu tenho visto por aí é pobre pedindo voto para os ricos, mas rico pedir voto para os pobres!!… Isso é inusitado! Só Chico mesmo!…

  • No início da década de sessenta, Chico não era nem conhecido ainda como cantor, fazia todas as noites/madrugadas um trabalho junto à Pastoral de São Paulo, distribuindo lençóis ou alimento com os mendigos moradores das ruas e praças da metrópole. Foi aí que Deus o recompensou com a verve de destacado cantor, poeta, escritor e compositor. Chico ficou nacionalmente conhecido logo que lançou sua primeira música, que gostosamente dizia: “Estava à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de amor”…

  • Bem feito, Chico! Você devia estar lá no seu pedestal de artista, longe dos pobres, protegido de todo mal!... Deixe os pobres sem representantes no Congresso! Pobre ser representado, pra quê?!… Isso é coisa de rico, Chico! Pobre tem mesmo é que viver à toa na vida, até morrer!…

  • “Chico tem utilizado a Lei Rouanet em benefício próprio”… - Quem disse essa graça foi o apresentador de TV chamado Ratinho”. Você contestou e o processou por calúnia, sei Chico. Isso aconteceu em setembro/2025. Em outubro, o juiz da 41ª Vara Cível do Rio de Janeiro determinou que o caluniador, Ratinho, em 5 dias, apresentasse elementos para comprovação de sua declaração ou se retratasse. Ratinho ficou mudo e quieto na sua toca. Nada tinha a apresentar. Teve que pagar multa de R$ 50 mil pelo crime de Desobediência (?). - Era uma injúria, mas virou Desobediência porque o difamante não apresentou as provas…

  • Quanto aos Sem Terra, lembra, Chico? Nos tempos assombrados e perturbados de Bolsonaro no poder, ele, em seus discursos, classificava os Sem Terra de “terroristas”. Eram os únicos terroristas do país, que ele apontava. Em seu governo, de triste memória, PCC e Comando Vermelho não eram facções terroristas. Eram, soberbamente, clientes dos vendedores de armas. Até davam um jeito de possuir o CAC (Certificado de Colecionador, Atirador e Caçador), fornecido pela Polícia Federal de Bolsonaro. Compraram as armas que bem quiseram, sem necessidade de contrabandeá-las.

  • Enquanto os latifundiários tinham também o direito de adquirir armas ao seu bel prazer, os “terroristas” Sem Terra tiveram que se desfazer até das velhas espingardas de matar passarinho. Belo exemplo de desigualdade de poderes.

  • Agora os “terroristas” Sem Terra querem ter representantes no Congresso, pra quê?!… Não se meta nessa enrascada, não, Chico! “Terroristas” Sem Terra já vêm lutando pela justa divisão das terras desde a promulgação da Lei de Terras, de junho/1850, com raríssimo sucesso. O Imperador concedeu quatro anos para regularizar as terras, mas os antigos e os novos posseiros ficaram empurrando com a barriga a Lei de Terras, que chegou a atravessar a Proclamação da República e a Abolição da Escravatura. Os negros, indígenas e pequenos agricultores que, em 1850, possuíam algum naco de terra, perderam-na, e morreram de velhos sem ver a terra dividida. Já os herdeiros (bisnetos e tataranetos) dos que, pela força, se tornaram latifundiários tiveram mais sorte. São, hoje, os nossos engravatados representantes no Congresso.

  • “Tá vendo aí, Chico? Faz mais de um século que essa luta não cessa. Se você se intromete, vão lhe torturar, vão tirar todas as suas canções do ar, e você vai morrer à toa, Chico, sem ver a banda passar.

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 29/09/2026
Alterado em 29/09/2026


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