Fernando A Freire

Amar a dois sobre todas as coisas

Textos

OS MAL-EDUCADOS FILHOS DO MITO

Gilberto Freyre denunciou a maneira como os valores do sadomasoquismo social são transmitidos de pai para filho através de engenhosos mecanismos da "educação".

Pior: um sadomasoquismo (que significa: ter prazer com o sofrimento alheio) que, hoje, é repassado facilmente, tanto de pai para filho como via redes sociais. O prazer do sadomasoquista é crescente e ilimitado. Cresce por indução, na medida em que cada um dos seus pares e seguidores se torna masoquista.

Analisando bem, ninguém precisa ser altamente inteligente para deduzir a qual cidadão ou grupamento familiar ouso me referir.

A título de ilustração - para facilitar a análise -, descrevo, a seguir, um excerto de Machado de Assis, muitas vezes citado por Gilberto Freyre, Josué de Castro e Jessé de Sousa em suas obras voltadas para a sociologia e para o social:

"(...) um dia quebrei a cabeça de uma escrava, porque me negara uma colher de doce de coco que estava fazendo, e, não contente com o malefício, deitei um punhado de cinzas ao tacho, e, não satisfeito da travessura, fui dizer a minha mãe que a escrava é que estragara o doce: "pura pirraça"; e eu tinha apenas seis anos...

...Prudêncio, um moleque escravo da casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freios, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava-lhe mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia - algumas vezes gemendo -, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito um - ai, nhonhô -, ao que eu retorquia: - "Cala a boca, besta!".

Esconder os chapéus das visitas, deitar rabos de papel a pessoas graves, puxar pelo rabicho das cabeleiras, dar beliscão nos braços das matronas, e outras muitas façanhas deste jaez, eram mostras de um gênio indócil, mas devo crer que eram também expressões de um espírito robusto, porque meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia, à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos".

O pai se descobre tão masoquista quanto o filho. Ambos convivem num mesmo ambiente e dispõem de material humano de sobra para realizar os seus desejos malévolos.

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Nada mudou. Vai aqui uma história semelhante, ainda repetida em nossos dias:

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Um filho do presidente (em 2018), um mês antes de o pai tomar posse, descarregou o seu premeditado ódio à democracia ao dizer, numa palestra, que "Para fechar o STF bastam um cabo e um soldado".

Não demorou muito e esse suposto pai, para premiar o espírito robusto do filho (03), ofereceu-lhe, como mimo, o cargo de embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

Como não deu certo, agendou que o filho mais velho (01) sairia candidato à presidência da República do Brasil, e não um seu suposto amigo, a quem já tinha dado a oportunidade e o privilégio de se eleger governador de São Paulo.

Um pai que acabou de confessar, com muito orgulho:

“Todos os meus filhos aprenderam a atirar com 5 anos de idade”.

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Síntese do resultado da análise:

- constata-se: a verticalidade do mandonismo, do autoritarismo, do machismo e do patriarcalismo (quem estiver abaixo de mim é pra me servir); sementes culturais que ainda germinam na política e nos grandes latifúndios brasileiros;

- uso de palavrões indignos como adereços da comunicação (ver a indecente reunião ministerial de 22/04/2020), ou exclamações imperativas, tipo:

- “CALE A BOCA!”..., (com jornalistas ou com quem fizesse alguma pergunta de difícil resposta)…; - “QUEM MANDA SOU EU!”...; - “A CANETA ESTÁ NA MINHA MÃO!”...; - “A CONSTITUIÇÃO SOU EU!...”; - “MINISTRO MEU TEM QUE CUMPRIR AS MINHAS ORDENS!”...; - “SE ESTÃO MORRENDO, POUCO IMPORTA!... UM DIA TODOS VÃO TER QUE MORRER MESMO!”...; - “E O QUE EU TENHO A VER COM ISSO?!”...; - “SOU MESSIAS, MAS NÃO FAÇO MILAGRES!... Além de muitas outras sandices ou esquisitices que os filhos aprendem, até por obrigação, e o pai não os repreende).

“Filhos de gato, gatinhos são”, ou melhor: pra ocupar cargos mais notáveis,

só meus gatinhos são confiáveis.

. "Em terra de cegos, quem tem um olho é rei”

- Para um rei que só se preocupa com o seu ego, o importante é que em seu reino todos sejam cegos.

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Nada mudou mesmo.

Quando somos tratados como o pequeno e subserviente escravo PRUDÊNCIO, ou perdemos nossa capacidade cognitiva ou, por outra, - como pretendem os governantes masoquistas - estamos cegos.

(fernandoafreire.net)

Fernando A Freire
Enviado por Fernando A Freire em 14/10/2026
Alterado em 17/10/2026


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